Um mês depois
Moradores do Laranjal ainda não têm previsão sobre retorno às casas
A água acumulada dentro das casas agrava os prejuízos; a maioria das pessoas não conseguiu retirar móveis e bens antes de sair
Foto: Volmer Perez - DP - Nível da água continua alto no Laranjal e moradores não têm perspectiva de quando poderão voltar para as suas casas
“Estou fora de casa há 24 dias. Está difícil, nada de perspectiva”. A declaração de uma das moradoras do Balneário Valverde representa a situação que muitas outras pessoas estão vivenciando. São atingidos pelas inundações no Laranjal que saíram de suas residências há quase um mês e até o momento não conseguiram retornar ao menos para conferir o estado dos lares, pois o nível da água ainda é alto. A circulação só ocorre de barco e, mesmo assim, com o volume intenso, não é possível abrir os imóveis. Sem previsão de diminuição da cheia, o temor é pelo cenário que será encontrado com o agravo dos estragos pelo tempo.
Viúva e mãe de gêmeos de dez anos de idade, Vanessa Folha saiu de casa no dia 7 de maio. Na foto que mostra da sua residência, tirada no dia 25 por vizinhos, a água estava na altura das janelas e no pátio só dava para ver as bolas de futebol das crianças flutuando. A funcionária pública relata que com a ajuda de amigos chegou a levantar todos os móveis possíveis antes de sair, mas que devido ao alto nível da cheia, não tem como saber o que foi atingido. A casa fica localizada na rua 29 do Valverde, um dos balneários mais atingidos pela enchente. “Não sei se salvei alguma coisa, até agora não consegui ver porque acesso só de barco. É a terceira enchente que vivo, em 2015 perdi toda cozinha e quartos”, lamenta.

A moradora conta que como ainda não havia um volume significativo de água, pensou que em breve poderia retornar para a casa, por isso alugou um apartamento por aplicativo de alugueis por temporada. Em oito dias, foram gastos R$ 2 mil. “A grana acabou, aí agora faz 15 dias que estamos no apartamento com duas amigas. Graças a Deus, mesmo com tudo isso sou muito abençoada com as amizades que tenho”, destaca. Mesmo assim, com duas crianças fora do lar e da rotina, Vanessa ressalta que não tem “como se sentir bem”.
Assim como outros moradores, a funcionária pública descreve como desesperador e um sentimento de impotência o que sente perante as perdas e a falta de previsão sobre quando poderá retornar para ver a situação da sua casa. “Eu não faço ideia do que restou e como adquirir de novo? Com o auxílio de R$ 5,1 mil? Pego uma geladeira e talvez um sofá”. Vanessa afirma ainda que faltou iniciativa de prevenção do poder público no Laranjal. “Podiam ter feito muito mais do que fizeram. Já sofremos com alagamentos lá há anos, poderiam ter feito muito antes, diques de contenção como fizeram em outros bairros”.
Outra moradora do balneário Valverde, Lori Papaiani, conta que está desalojada desde o dia 5 de maio. Assim como Vanessa, ela contou com os vizinhos para receber uma atualização sobre o cenário em sua casa. No dia 16, recebeu uma foto que mostrava a água em grande volume, alcançando quase o topo do muro. “E isso foi no dia que marcou 3,03 metros [o nível do São Gonçalo] e chegou a 3,13, então aumentou bastante o nível da água lá dentro”, diz. De acordo com ela, como mora próximo da rua Nova Prata, o local também estaria sendo atingido pelo canal.
Com o alerta de inundação, Lori saiu às pressas com o marido, que possui dificuldades de locomoção causadas por uma deficiência física, levando somente uma mala com roupas, documentos e a cadeira de banho dele. “Tudo meu está dentro dessa casa. As nossas, camas, geladeiras, eletrodomésticos, tudo destruído. Já me cadastrei no auxílio, mas com R$ 5,1 mil não se recompõe uma casa”, aponta.
De acordo com a moradora, o que a acalma é o acolhimento das sobrinhas, onde está ficando, e o auxílio que tem prestado na separação e doações de roupas aos abrigos. “Faz no mínimo 20 dias que a minha casa está assim [cheia de água], está destruindo. É desesperador. Vou esperar a água baixar para ir lá e ver o que sobrou, mas já tenho a consciência de que não terei cama nem sofá”, relata.
Diante das perdas, Lori também afirma que para que se sente “desprotegida” pelo poder público e que medidas como aumento ou construção de diques deveriam ter sido executadas. “Pode ser radical da minha parte pensar assim, mas a gente estava acompanhando o que acontecia em Porto Alegre e o tanto de água que teve. Eu acredito que era visível que os níveis aumentariam, precisaria que se elevasse pelo menos mais um metro aquele dique que tem ali [no Pontal da Barra]”.
Agora, para a moradora é aguardar a água baixar para contar os estragos e recuperar os bens e a normalidade da vida aos poucos. Lori vai contar com um fator essencial: amigos que já ofereceram doações de eletrodomésticos e auxílio para limpar a casa. “É contar com os amigos, é isso, a vida é feita de solidariedade”.
Intervenção
Desde a sexta-feira (31), equipes do Sanep tentam realizar um barramento para possibilitar o funcionamento da casa de bombas localizada na rua Nova Prata. Na área da estrutura o grande volume de água da enchente tem impedido o trabalho de drenagem. Além disso, medidas como tratores equipados com bombas pluviais foram colocados para retirar a água de pontos como o balneário Santo Antônio.
Concomitante a isso, de acordo com o Sanep, o Município cadastrou no PAC, do governo federal, um projeto de drenagem completo, orçado em R$ 16 milhões, que prevê a construção de uma nova casa de bombas, de alta capacidade, e a ampliação do dique já existente, mantido pela Secretaria de Serviços Urbanos e Infraestrutura (SSUI). Até o presente momento, não houve retorno por parte do governo federal.
Além disso, de acordo com a secretária de Serviços Urbanos e Infraestrutura, Lúcia Amaro, o dique no entorno do Valverde com cerca de dois quilômetros de extensão e 2,5 metros de altura, foi elevada sua altura em cerca de meio a um metro em setembro do ano passado. A gestora diz ainda que a contenção tem sido constantemente monitorada e, com utilização de embarcação, refeitos pontos mais frágeis com sacarias.
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